domingo, 28 de outubro de 2012

NÃO FOI no GRITO – 056



MIRAGENS & PESADELOS.

“Na quarta parte nova, os campos ara,
“E se mais mundo houvera lá chegara”.
CAMOENS, c. VII. e. 14. CORREIO BRAZILIENSE DE OUTUBRO, 1812

Erasmus Salisbury FIELD - Monumento à República Americana - 1875
Fig. 01 – O artista ingênuo se entrega à miragem norte americano de acumulação urbana, de verticalidade e de concentração sufocante num país de dimensões continentais. Esta e que foi copiado e adaptado em todos os países do Novo Mundo. Não foram suficientes os incêndios de Chicago e os efeitos devastadores do terremoto de São Francisco. O golpe nestas miragens veio com o atentado às duas torres gêmeas. Na cultura ocidental a miragem da Torre de Babel foi uma constante em todas as latitudes e que, agora, se alastra aos Emirados Árabes e ao oriente com os Tigres asiáticos.

A miragem parece, no primeiro momento, como algo bom, senão um milagre. Para o indivíduo que a percebe ela constitui a promessa e a esperança de uma solução definitiva de problemas angustiantes. Esta maravilha pode-se transformar, na sua concretização, num pesadelo prático para o próprio indivíduo que a percebe como para a coletividade.
É o caso do denominado “MENSALÃO” na politica brasileira. Parecia, num primeiro momento, a solução para um problema da política brasileira e para os problemas particulares daqueles que perceberam esta miragem e acreditaram nela. Tornou-se um verdadeiro inferno tanto para toda a classe política como estarreceu toda população brasileira. Esta viu erguer-se, da sombra e do silêncio, provas contundentes que abalaram a credibilidade brasileira nacional e internacional.

Carl SPITZWEG 1808-1886 “O Poeta”
Fig. 02 – A preguiça, como oficina do diabo, é povoada de miragens que se transfiguram, depois, em patologias que geram pesadelos. Estes pesadelos que constituem a matéria prima a ser transformada em indústria cultural e cujos produtos, se não forem vendidos para as ex-colônias europeias, servem de motivos e temas para o marketing e a propaganda das matrizes “liberais”. Marketing e propaganda em relação a cidadãos competentes para transformarem os seus tabus em totens. Com esta justificativa se entregarem, de corpo e alma, à fabricar mais e mais miragens, pois o mercado é seguro e cativa por hábitos seculares de servidão e heteronímia mental e físico.

Porém não é a primeira vez que a maioria do Poder Originário da Nação viu  miragens malignas destas se concretizarem em inferno para todos. Miragens malignas que respondem ao projeto colonial, à aparente solução da escravidão, as Missões jesuíticas e as ditaduras militares. Miragens malignas brasileiras as mais conhecidas e estudadas unilateralmente.
O unilateral deve-se ao fato de que estes estudos são parciais. Eles não acompanham seus efeitos do mal, não atingem e nem exterminam suas sementes. Efeitos do mal que se concretizam e atingem gerações inteiras. Escondem esqueletos sob o tapete da sala nacional. As sementes de miragens malignas disseminam e constituem o alimento do mal feito. Sementes que contaminam, emperram e corrompem todo o projeto civilizatório brasileiro.

Francisco José GOYA y LUCIENTES 1746-1826As bruxas”,  c. 1797 - óleo 43 cm X 30 cm
Fig. 03 – A mente humana europeia se povoa de miragens e o corpo perseguido por normas e tabus de toda ordem. Esta alma penada encontrou uma válvula de escape nas colônias, onde os crédulos bugres e africanos aprendiam e eram aterrorizados com as mesmas miragens e tabus.

O Poder Originário brasileiro, escaldado por estes sufocantes desastres, pode esperar e preparar-se para tantos outros e piores miragens.
Uma das características destas miragens políticas é um pequeno grupo visionário percebe alguns índices. Este pequeno grupo age rápido, silenciosa e ocultamente sem contrato com aqueles que ele se imagina como vítima. Para surpreender, estas potenciais vítimas, transforma estes índices naquilo que lhe parece altamente favorável aos seus próprios interesses. Nesta rapidez e cupidez atropelam as suas vítimas. Na sua precipitação passam por cima, se apropriam e depredam também o patrimônio material ou imaterial do conjunto nacional. Com o susto da sua audácia e do imprevisto os seus mentores auferem altos lucros pessoais. Lucros que se transformam, depois, em agonia para eles e para toda a população.

Fig. 04 – O pintor Domenikus Theotocópulos , de origem grega, havia passado por Veneza, a Rainha do Adriático e fixou-se no reino da Espanha. Em Toledo  captou e plasmou nas suas perturbadores imagens das miragens de uma nação na qual o Sol nãos se punha.  As sua interpretação de Lacoonte e os seus filhos sendo sufocados pela serpente era um sinistro pressagio dos desmandos e pesadelos que ainda esperava este povo.

Na literatura mundial aparecem na forma de Dom Quixote, que se transformam em pesadelo para o seu fiel escudeiro e motivo de pena e raiva da população geral. Ou então um Don Juan, um Fausto ou de mágico aprendiz que perde o controle dos seus pretensos dons.
A risonha miragem mundo do trabalho - transfigurado em ócio criativo perpétuo- está se transformando em pesadelo. Os primeiros  encantos da Princesa Moura do Jarau do eterno ócio e do prazer ilimitado, revelam, agora, o desespero de nações inteiras  e dos desempregados que caíram na armadilha.

RICHARD HAMILTON (1922-2011) - What  Was It That Made Yesterdays Homes So Different, So Appealing?
Fig. 05 – O primeiro quadro da POP ART mostra a superabundância de um lar de 1956.  O seu insólito título, na forma de uma pergunta, mostra o espanto do seu próprio criador. Ele é um índice silencioso como este conforto, sedução e separação do mundo da rua e da praça publica e aberta afasta e distrai os seus habitantes da política e das causas publicas que eles deixam para uns poucos e nos quais podem votar – ato que dura uns segundos e depois se alienam no seu conforto e vida sedentária em ambientes nos quais pensam que possuem tudo. No entanto só possuem mediações de outros que deliberam e decidem no seu lugar.

O olhar feminino da inglesa Deborah ORR faz coro ao quadro de Richard Hamilton. Ela percebe e descreve a causa desta alienação. Registra a existência miserável do britânico antes, durante e após as Olimpíadas de 2012 de Londres. Ela escreveu no The Guardian no dia 26 de outubro de 2012 que:
“antes da década de 1970 tivemos o Baby boom e que quebrou a ilusão, usada para presumir que no futuro todo mundo iria empregar menos tempo no trabalho e desfrutar mais tempo no seu lazer. Este futuro é agora. A sua versão caiu em cima de nós. O pesadelo do lazer imaginado estava recheado de dinheiro. No entanto, o lazer real da agora é caro e difícil. Muita gente não se importaria em trabalhar menos, se este tempo menor lhes fornecesse dinheiro suficiente para gozarem uma razoável qualidade de vida. É hora de o governo - e qualquer outro governo - começar a pensar sobre como ele pode enriquecer a vida e financiar de uma forma moderada. Isto não significa dar apenas dinheiro suficiente, às pessoas, para levarem a uma existência miserável em frente da televisão nas horas em que não trabalham”.

Fig. 06 – Ruben GRILLO é  desenhista competente para captar e registrar essencial das miragens que motivaram e sustentavam na época em acontecia o regime militar no Brasil. As suas obras circularam amplamente na imprensa nacional nesta época obscura, bizarra e surrealista para uma nação civilizada. Estas obras gráficas constituíam uma espécie de baixo contínuo e subliminar dos absurdos que pode levar a aceitação, a concretização em atos políticos e as trágicas consequências para aqueles que não se dobravam ou não queriam se importar com esta realidade distorcida.

Os mentores nacionais das miragens possuem pela frente dois eventos internacionais. Eventos que foram elaborados, aceitos e aprovados sem consulta e são carentes de um contrato nacional. Estes eventos de 2014 e 2016 irão carrear lucros certos para algumas empresas promotoras. Enquanto o trabalho e os prejuízos ficarão para serem saldados por uma imensa maioria, para não dizer de todo o Poder Originário brasileiro. Seguem o esquema eterno de “embolsar os lucros e socializar os prejuízos”. Miragens de lucros de imensas fortunas especulativas que a qualquer momento poderão revelar a natureza atroz desta nova miragem. Atrocidade que se revelará na transformação deste aparente paraíso oásis,  concretizado  em novo colonialismo e na escravidão de várias novas gerações. Prejuízo que transformará toda uma população em reféns internacionais. População presa aos grilhões de um novo colonialismo no mundo virtual e numa escravidão não menos real e vil.

Fig. 07 – O profeta Antônio “Conselheiro” no meio da miséria, agruras das secas constantes e das carências das necessidades básicas traduziu estas circunstâncias em bizarras prédicas originárias das miragens que estas privações provocam em qualquer ser humano, por mais saudável e resistente que ele seja fisicamente. Foi impiedosamente eliminado por um regime republicano que enfrentava uma revolta após outra que pipocavam em todo território nacional.

Em geral aqueles que se deixam envolver, e seduzir, pelas miragens, transfiguram-se em sacristãos da moral e do bem coletivo. Por esta razão seria trágico perceber estes poucos caírem nas armadilhas que eles mesmos armaram. Porém historicamente não é assim e o limite do dano não apenas este pequeno grupo de temerários. Contam não só arrastam a população inteira para o prejuízo. Contam também os seduzidos pelas miragens. Além disto, e o pior, consiste que este pequeno grupo mentor das miragens, transforma-se em cães raivosos e de guarda, agredindo, prendendo e matando quem duvide deles e das suas ilusões.

Foto Fabio Barros
Fig. 08 – A população miserável do Arraial de Canudos a espera, em 1897,  por uma solução final de sua miragem “do sertão virar mar” e o início de um pesadelo onde a miséria e morte eram corolários naturais das agruras das cíclicas secas. Um dos bairros de Canudos era designado Favela.  Favela que irá se espalhar todo o território nacional, não só pela designação, mas com a mesma realidade que estes infelizes viveram no final do século XIX nos sertões nordestinos. Realidade que terá o ciclo do cangaço em pleno século XX. Cangaço resultante das mesmas carências das necessidades básicas. Irá gerar outras tantas miragens que traduziram estas mesmas circunstâncias que tinham na sua raiz as mesmas privações insuportáveis para qualquer ser humano, por mais saudável, educado e resistente que ele fosse.  

 As miragens são contagiosas, perigosas e sinistras. Um mínimo de poder descuidado que cair nas mãos dos mentores das miragens, os faz agir firmemente para “salvar” as suas miragens com este poder. Ação que os leva ao ponto de promoverem - para aqueles que os querem de retorno à realidade - a instalarem as fogueiras da inquisição, os campos de concentração ou as câmaras de gás.

Diego RIVERA -1886-1957 “Calavera Catrina
Fig. 09 – O pintor mexicano buscou na mitologia, história e cultura do se povo os rituais e os signos do poder das miragens coletivas que moveram sempre as multidões desta nação. Os trágicos desfechos destas miragens também não se fizeram esperar. A Tenotchtitlan toda arrasada diante dos espanhóis no embate dos astecas em manter e defender a miragem de Huitchilopotchli.

As miragens do poder e das aparentes e perpétuas soluções não foi apenas o mundo europeu em geral. Cada nação foi vítima seduzida pelas suas miragens particulares. A nação portuguesa aceitou coletivamente expressa na miragem no Lusíada. Camões versejou que “na quarta parte nova os campos ara, E se mais mundo houvera lá chegara” (CAMOENS, c. VII. e. 14). O CORREIO BRAZILIENSE tomou este fragmento da miragem como consigna e abertura em todos os seus números. Ela confere forma poética escrita desta miragem. Esta epígrafe é visível na edição, de nº 53, de OUTUBRO de 1812.
A própria obra de Arte pode ser vitima da propaganda e do marketing, transformando-se numa miragem, corrupção e nascer morta. No entanto a coerência da Arte é o teste permanente de desta obra. Ela é coerente ao expressar o ser humano de cujo ente elas se origina. Como tal ela se transfigura, além de possuir também valor de documento de época e de local.

Hélios Aristides SEELINGER(1878-1965) - Costas do Brasil 1947 óleo 70 x 67 cm
Fig. 10 – O pintor simbolista brasileiro Seelinger captou, em largas pinceladas, o confronto entre as temerárias caravelas lusitanas frente à esfinge imperturbável do ameríndio. Este, até os dias presentes, não está suficientemente convencido a aceitar um contrato com que destruiu as suas flores, poluiu os mananciais, espantou os e extinguiu os bichos e levou para além-mar o que interessava. Como prêmio o europeu trouxe escravos e hordas de europeus. deserdados da sorte, nos porões dos seus navios.

A América Latina e o Brasil, em particular, foram campos experimentais zelosamente guardadas por fortalezas de todas as ordens. Território no qual laboratórios - invisíveis para os demais europeus - podia manter sigilosamente, sob seu controle, as vítimas das suas miragens. Longe do olhar mundial praticaram silenciosamente as piores atrocidades e que clamam ainda por justiça. Não é por acaso que vários sinistros carrascos nazistas procuraram, para eles mesmos,  estes paraísos das miragens depois de terem arruinado, com suas miragens,  o seu regime na Europa. E “se outros mundos houvera” colocavam os portugueses no projeto da a sua conquista preludiando o sonho da corrida espacial, mas que outras culturas concretizaram.
Ao atravessar os Sertões varados por profetas e místicos de toda ordem, um dos personagens de Guimarães Rosa vai recitando:
Querer o bem com demais força e de incerto jeito, pode já estar sendo se querendo o mal por principiar. Esses homens!. Todos puxavam o mundo para si, para concertar consertando. Mas cada um só vê e entende as coisas dum seu modo. (Guimarães Rosa, 1963, p.18)[1]



[1]  - GUIMARÃES ROSA,  João. Grande Sertão: Veredas. Rio de Janeiro : José Olympio, 1963, p. 18..


DIEGO RIVERA 1886-1957  NY -  Le Monde 20.11.201
Fig. 11 – O  “vigiar e o punir” cria o clima de uma ordem cemiterial. A lógica, a ordem e os métodos tayloristas da cultura norte-americana foram captados pelo pintor mexicano Diego Rivera. Este quadro contrasta vivamente com aquela da Fig. 09 do mesmo artista.  Comparando estas duas obras é possível  ter uma ilustração do “Abstrakion und Einfülung” do alemão William Worringer
Este literato mineiro havia assistido, como diplomata brasileiro, a ascensão do regime nazista na culta Alemanha onde exerceu o se cargo na década de 1930. As suas “Veredas” brasileiras são a continuação e constituem cenários das mesmas ou piores miragens da cultura europeia. Cultura europeia que transformou em colônias as outras culturas. Colônias nas quais se sentia abrigada a implantar os laboratórios dos seus desmandos. Desmando que não podia praticar nos laboratórios do Velho Mundo interditados pelos sacristãos da moral e do bem coletivo.
Talvez a pior prisão sobreveio com a fragmentação “cientifica” desta realidade. Fragmentação e isolamento recíproco comandado pelo culto da Razão soberana tanto do iluminismo como, depois, pelo positivismo. Positivismo e iluminismo nos quais poucos privilegiados possuem uma visão conjunta. Nesta fragmentação e neste isolamento recíproco cada agente necessita se contentar com a visão, estudo e controle de uma realidade mínima. Esta realidade mínima será o seu mundo para sempre e para todos os efeitos. Nesta fragmentação e isolamento recíproco, a Filosofia e as Artes são para temerários.  As especulações gerais e de cunho abrangente serão classificadas como inúteis, senão, altamente prejudiciais. O temor é que tais especulações, gerais e abrangentes, venham concorrer ou descubram, denunciem e trabalhem contra as meias verdades das miragens.

Spiegel em 26.10.2012
Fig. 12 – A miragem da escola e o pesadelo didático de uma escola na linha de montagem taylorista impõe a norma é vigiar e punir, mesmo que seja apenas simbolicamente e a seleção daqueles que estão mais acostumados em aceitar a heteronímia. Os mediadores deste pesadelo - sem condições de compreenderem o paradigma e muito menos exercer alguma deliberação e decisão de mudar - dificilmente são encontrados no exercício efetivo do magistério. Os mediadores trabalham por cima e por fora, fatiando a realidade. Fatias que sobrecarrega a vida da infância. Esta criança não terá a menor chance de perceber o conjunto de uma civilização, mesmo muito tempo depois de deixar a escola. Este peso curricular fatiado será - no máximo - um pesadelo de miragem do passado que ela jamais irá desejar de volta.

A educação formal brasileira constitui outra nau de insensatos movida pelos ventos das miragens. Na sua aparente neutralidade a sua tripulação deseja-se medidora no âmbito de culturas universais. No entanto desqualifica, aniquila e esteriliza quem se aproximar ou - pior ainda - se submeter às deliberações e decisões provenientes destas miragens de que esta nau é a portadora. No entanto, o seu maior perigo se encontra escondida nos seus porões e do qual nem a sua tripulação suspeita. Lá se alojam teses que se concertam entre si mesmas em argumentos relativos à indolência dos ameríndios, africanos e nordestinos. Piores que as antigas pestes, escorbuto, ratos e baratas que se introduzem, subliminarmente, em culturas que não possuem predadores competentes para lhes dar combate adequado. Porém destes saem destilados que ganham foros nacionais e internacionais como o “homem cordial brasileiro”, do “Jeca Tatu bem sucedido” ou do “bandido da luz vermelha” e tantas outras teses extremamente favoráveis aos seus autores. Teses que fazem a mentalidade de uma classe que cai na heteronímia e se identificam com esta minoria elevada ao nível de mediadores incontestes.


Frank WILLINGER - 1959- Ecce Homo - jun.1999
Fig. 13 – A arte contemporânea retomou imagens clássicas da cultura europeia como este Cristo nu e isolado sobre um pedestal público. Cristo, fora do poder de uma igreja, mas  condenado em nome de uma miragem. Cristo nu e isolado do mundo do consumo e de algum conforto material.

 Teses que, na sua heteronímia, nomeiam-se a si mesmas como as “legítimas e magníficas benfeitoras da humanidade”, quando de fato mergulhada na “escravidão voluntária” e se dizendo as perpétuas iluminadas. Nenhum marketing e propaganda dos apoiadores desta  nau dos insensatos, irá contradizer estes senhores momentâneos do raio e do trovão, e já embarcados para outra missão. Nau que, no momento que tiver cumprido a sua missão local -  e diante da hostilidade dos nativos - subir para níveis insustentáveis, irá levantar âncoras, e se dirigir para outros quadrantes mais favoráveis. As vítimas da missão local enterrem aqueles que tombaram na luta e os esqueçam - o mais rápido possível - diante da ameaça e da aproximação de outra nau de insensatos diferentes. 


Fig. 14 – Numa praça de Nuremberg, onde foram julgados os líderes nazistas, depois d IIª Guerra Mundial, ergue-se um monumento público `Nau dos Insensatos.  Esta cidade foi também centro de grande desenvolvimento dos meios impressos e que, na sua multiplicação, circulação e discussão tiveram condições de mostrar e evidenciar o que constitui miragem e apontando caminhos para a busca da realidade individual e coletiva.

A história colonial se acelerou. Agora as naus são aéreas e que se orientam pelo acumulado de redes mundiais. Porém os temerários de antemão conhecem, por meio destas redes, aquilo que interessa, e calculam os pontos aos quais convém evitar para não causar nenhuma contestação ou grito das novas e incautas vítimas. 


Fig. 15 – O historiador Erich Hobsbawn encara os leões de Porto Alegre em 13.2.1992 Estes  leões de mármore são das ilusões ou “de chácara”. São feitos apenas - e colocados ali - para que lembrem do efetivo Poder Originário do qual o prédio e os seus ornamentos seja o prolongamento de uma sala de visitas públicas dos estrangeiros que chegam a esta metrópole.

Neste contexto vale a observação de Erich HOBSBAWN de que ninguém se deve sentir autorizado ou estimulado na busca de novos mundos e muito menos tentar implantá-los. Estes ‘“novos mundos” poderão se revelar tantas outras miragens. Miragens cujas consequentes alienarão da realidade e a sua concretização poderá ser muito pior do que aquela que estamos vivendo. Já será um imenso ganho, para todos, se pudermos viver num mundo contratual público e coerente com a vez e a voz de todos.


FONTES BIBLIOGRÁFICAS

BOÉTIE, Etienne La (1530-1563).  Discurso da Servidão Voluntária (1549).  Tradução de Laymert G. dos Santos.  Comentários de Claude Lefort e Marilena Chauí.  São Paulo : Brasiliense, 1982. 239p.
FOUCAULT, Michel (*15.10.1926 – †28.06.1984).  Microfísica do poder. Rio de Janeiro : Graal, 1995. 295 p.
GUIMARÃES ROSA,  João. Grande Sertão: Veredas. Rio de Janeiro : José Olympio, 1963.
HOBSBAWN, Eric J. (1817-2012) . Nações e nacionalismo desde 1780: programa, mito e realidade. Rio de janeiro : Paz e Terra, 1991, 230 p.

FONTES NUMÉRICAS DIGITAIS

CORREIO BAZILIENSE – Londres - outubro de 1812

EDUCACIÓN PROHIBIDA

ANTONIO CONSELHEIRO 1830-1897

ARTE,  CULTURA e ESPORTE na Inglaterra
You cannot feed a nation on culture and sport, but you can nourish it
The government should help us enrich our lives with a little circus, even when bread is in short supply

Nau dos Insensatos
http://www.wdl.org/pt/item/8973/ - O livro  do ano de 1494 de Sebastian  Brandt 1458-1521

TEXTO PRODUZIDO ao SOM de
VERDISimon Boccanegra – Scala de Milão - 2010 – duração 02h27min57seg.

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quarta-feira, 24 de outubro de 2012

NÃO FOI no GRITO – 055





Os MORDOMOS de FAMÍLIAS dos RICOS ou a
 BUSCA dos CULPADOS de SEMPRE e de TUDO.

“...fazendo assim de todo o reyno de Sicilia uma só familia, debaixo de uma cabeça, governada pelas justas e liberaes leys que ella mesma formara. Estes melhoramentos porem na Constituição de Sicilia, naõ se tem feito sem encontrar uma forte opposiçaõ da parte dos interressados, como succede sempre que se propõem reformas para abusos antigos”.
Correio Braziliense, nº 53, outubro de 1812, p. 691.

Fig. 01 – O artista Marlon Brando interpreta O Poderoso Chefão (Godfather) num filme de Francis Copola mostra a corrupção do pátrio poder tomando e mediando o poder do estado ausente. Um frágil poder originário facilmente cai na heteronímia destes “Duces”, Fürhers”  quando as cultura ainda se alimenta da escravidão servil ou da fácil escravidão voluntária. Esta se exime de toda culpa e a sanção moral das mesmas as jogando nas costas de um pátrio poder mal entendido e ainda mais se é fomentado pela propaganda e pelo marketing.

Esta frase do Correio Braziliense de outubro de 1812 já pertence ao ideal romântico da época. Se alertava, um lado  em relação aos interesses contrariados, do outro lado, os dois séculos seguintes mostraram e desnudaram quem era de fato era esta “família” siciliana idealizada. Evidenciaram os métodos de que estes “interessados” contrariados eram capazes de lançar mão para se dissimular e manipular os “culpados de tudo”. Reis ou Imperadores, como os irmãos Bonaparte, ditadores de toda ordem como os “duces” ou “fürers”  ou eleitos pelo marketing e propaganda estavam de fato, e de direito, na heteronímia subliminar para eles. 

Isaac CRUIKSHANK - José Bonaparte e a sublevação espanhola gravura de 03.09.1808
Fig. 02 – José Bonaparte (1768-1844), irmão mais velho de Napoleão Bonaparte (1769-1821), cumpriu, a duras penas, o papel de mordomo deste e títere como imperador (1808-1813) da Espanha. Sem entender o poder originário espanhol, gostar dele ou não querer entende-lo, viu perpetrar atentados e massacres que o pintor Francisco Goya transformou em obras de arte. Estas constituem índices desta clivagem entre o poder autêntico e o poder simbólico de um simples factoide.  Na falta de um contrato público e um pacto nacional, o poder fluiu, arrasou e afogou este temerário que depois da queda do irmão se refugiou nos Estados Unidos e morreu em Florença.

Estas infelizes e desprevenidas vítimas de um povo são controladas e com limites muito mais estreitos do que a sua onipotência pessoal pode perceber ou mesmo se imaginar. Na sua ingênua heteronímia sobem ao palco público da História. Palco orquestrado e manipulado por imperceptíveis “pontos” para eles e para a multidão. Os que parecem lideres, no final da cena descobrem-se, ou não, como “mordomos da casa dos ricos”. Estes “pontos” foram, e continuam a ser,  pautados e manipulados por aqueles que conseguiram acumular, bens físicos, pessoas e bens simbólicos. No entanto contra todas as evidências vale a antiga norma ou desculpa de plantão que era o “mordomo é culpado de tudo” já que alguém deveria responder pelo mal feito.

Fig. 03 – O resultado de 1812,  o “reyno de Sicilia uma só família” levou o poder de retorno ao clã primitivo. Clã no qual o mais sagaz, o economicamente forte e o mais respeitado ou temido politicamente é quem faz as leis, as manda executar e julga pessoalmente conforme o seu interesse.  A imagem acima demonstra este poder paralelo de malfeitores e contraventores temerários e é de mafiosos presos e sendo julgados coletivamente, em 1901. Eles estabelecem seus próprios contratos, regulavam-se pela honra de sangue familiar e se julgavam o poder de fato e de direito. O resultado das condenações pelo Estado Italiano foi a pura e simples eliminação física de juízes.

Especificamente na história do poder na Sicília, entre 1812 até 2012, não é possível ocultar a história da máfia, das “famílias” e os mais refinados controles de poder que foi capaz de estabelecer na ilha e em outras tantas culturas que acumularam bens físicos, pessoas e bens simbólicos.
O ato de governar, o fazer executivo, seguir os constrangimentos das rígidas normas legais e as tensões inerentes à  tomada de decisões - com as mais variadas e contraditórias consequências – certamente não agrada a ninguém muito menos aqueles que se julgam ricos. O “Mal Estar das Civilizações” (Freud) acumula-se e toma formas agudas e incomodas nestes cargos e funções. Contudo tentam especialmente os despossuídos

Thomas ROWLANDON 1755-1827- gravura 1816
Fig. 04 – O artista inglês mostra a pestilência e a desolação que os emissários britânicos praticavam sobre povos indefesos e julgados como bárbaros e incultos. Tais faltas era mais do que um pretexto válido para devastar e se apropriar fisicamente destas partes do globo terrestre.  Na Europa esta apropriação e dominação de novos territórios  provocaram guerras internas na concorrência entre estes  estados nacionais para ver quem ocuparia mais terras e povos. Ocupação com objetivo de acumular matérias primas e territórios. Territórios nos quais também  podiam abrigar os excessos de sua próprias população desqualificada nos campos e sem lugar ou sem hábitos e habilidades para a linha de montagem das suas indústrias.  Evidente que para este serviço sujo necessitavam de “mordomos e culpados de tudo” quando algo não dava certo, havia resistências locais ou “trampa” fosse descoberta e denunciada.
Estes ricos tem a seu favor comprar e manter prepostos favoráveis às suas fortunas acumuladas os da mais variadas precedências, inclusive de alguns entre eles como aqueles em perigo de falirem. Esta manutenção do poder já havia sido anotada em 1821 por Hipólito José da Costa, quando ironizava um patriotismo que era praticado só quando era favorável:
“Ora aqui temos um bom exemplo, do patriotismo daquela classe de homens : toda a mudança he boa, em quanto pode favorecer os interesses da Aristocracia; cessa de ser boa, quando protege o bem publico, e torna a ser boa quando pôde, com o pretexto da administração da justiça, livrar esses mesmos indivíduos do que se suppoem vexame”
Correio Braziliense, nº 158, julho de 1812, p. 79.

Este talvez seja o lado mais perverso, dissimulado e silencioso efeito do capitalismo, dos herdeiros da aristocracia e daqueles que praticam a retenção e o acúmulo monetarista que deveria circular como todo e qualquer poder.

PALÁCIO de TOQUIO - Museu de Arte Contemporãnea - PARIS Le Monde 13.04.2012
Fig. 05 – Um happening contemporâneo encena - os mordomos da morte e os culpados que não podem se defender

O Brasil não escapou desta sina. Se examinarmos aqueles que se prestarmos atenção à origem destes que denominamos aqui de “mordomos de casa de ricos” podemos rastrear biografias das mais variadas. Isto sem falar de militares, clérigos, professores que se prestaram a este jogo.

 Morais, 1994 p.734
Fig. 06 – Uma das aprendizagens mais impactantes na vida particular de Assis Chateaubriand foi a sua função de mordomo na Família Lundgren em Recife.  Em compensação esta família teve nos Diários Associados  uma atenção permanente e dedicada  na propaganda e marketing de suas atividades empresarias e que se espalharam por todo território brasileiro. Na foto,  Assis com Helena Lundgren
.
O caso exemplar de Francisco de Assis Chateaubriand Bandeira de Mello (1892-1968), mordomo dos Lundgren, proprietários das Casas Pernambucanas (Morais 1994, 49,50) [ http://pt.wikipedia.org/wiki/Pernambucanas ]. Assis aprendeu como mordomo e passou a acumular gente, empresas e fortunas. Com este acúmulo  passou a chantagear ricos e fazer e a desfazer governos, sem cair na contradição de fazer parte de um deles. No entanto como profundo admirador da cultura e hábitos ingleses atualizou a antiga norma ou desculpa de plantão que era o “mordomo é culpado de tudo” já que alguém deveria responder pelo bem e pelo mal feito.




Renan SANTOS - FLICKr em  04.06.2012
Fig. 07 – A longa vida intrauterina e o lento amadurecimento do ser humano pode fornecer-lhe ocasião e desculpa para o retorno para a Natureza, Estas indecisões não são dadas aos outros seres vivos e que necessitam aprender rapidamente a usar a sua própria sobrevivência e autonomia. além de providenciarem a sua reprodução,

Não só o ideal romântico da “família” siciliana foi desnudado pelos dois séculos seguintes mostrando as suas contradições e corrupções. Também o populismo, a escravidão voluntária e o recurso ao poder acumulado,  a espera do primeiro temerário, geraram novas formas de barbárie, monstruosidades e genocídios das quais a humanidade quer sair o mais rápido possível. Esta pressa, vergonha e constrangimento em admitir o seu passado leva ao fazer pelo fazer. Esta mecânica apressada, e sem alma, ignora que toda civilização é uma construção artificial e única. Esta naturalismo esquece criar, implementar e provar qualquer projeto digno deste nome. Não adianta dissimular e muito menos lançar mão e manipular “os mordomos como culpados de tudo”. Na direção contrária, desta entropia, é necessário transcender a Natureza dada, admitir e agir positivamente para levar adiante esta construção, numa atenção e trabalho continuados. Impõe-se o cultivo das condições para a prática de  rupturas epistêmicas, estéticas e de hábitos incoerentes com o aqui e o agora.

 FONTES BIBLIOGRÁFICAS
FAORO, Raymundo. Os donos do poder: formação do patronato político brasileiro.   Porto Alegre – São Paulo : Globo e USP, 1975.  2v.

FOUCAULT, Michel.  Microfísica do poder. Rio de Janeiro : Graal, 1995. 295 p.

FREUD, Sigmund.(1858-1939).O mal estar na civilização (1930). Rio de Janeiro : Imago, 1974. pp. 66-150.  (Edição standard brasileira de obras psicológicas completas de Sigmund Freud, v.13)

MORAIS, Fernando, 1946 – Chatô : o rei do Brasil, a vida de Assis Chateaubriand. São Paulo ; Companhia das Letras, 1994, 735 p. http://pt.wikipedia.org/wiki/Assis_Chateaubriand

WRIGHT MILLS C. A elite do poder. 3.ed.  Rio  de Janeiro : ZAHAR, 1975.  421 p..

 FONTES NUMÈRICAS DIGITAIS
CASAS PERNAMBUCANAS

CORREIO BAZILIENSE – Londres - outubro de 1812

José BONAPARTE (1768-1844)

MÁFIA SICILIANA

ROWLANDON Thomas (1755-1827)

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Este blog é editado e divulgado em língua nacional brasileira e respeita a sua formação histórica. ...


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sábado, 20 de outubro de 2012

NÂO FOI no GRITO – 053


MUDANÇAS e INÉRCIA.
“O conservadorismo estético funda-se na recusa de romper com os
                                  códigos conhecidos para entregar-se às exigências internas da obra”                                                          
                                                                       Bourdieu 1987 p.218

Fig. 01 - A temeridade não é suficiente para uma MUDANÇA coerente. A ruptura epistêmica temerária  pode arruinar mais do que inverter a lógica anterior. A tese contrária à opinião geral certamente gera um problema na concepção aristotélica. Mais do que a simples coragem é necessária passar por um novo parto. Parto que para o psicólogo freudiano é a origem de toda a resistência a qualquer mudança, pois a experiência extrauterina tornou-se algo. O artista uruguaio Joaquin TORRES GARCIA ( 28.07.1887 -08.08.1949), ao inverter o mapa da América do Sul certamente gerou um problema. Na Arte como na Vida a mudança apenas pela mudança gera e legitima outro CONSERVADORISMO estético ou existencial.

As maiores mudanças são silenciosas e discretas. Elas não são realizadas no grito. Os conservadores, a ignorância e o poder querem se impor aos gritos rompantes e com encenações ruidosas. Com estes ruídos buscam camuflar o seu próprio vazio. A cultura inglesa fala que "an empty barrel makes the most noise" ou que “um barril vazio faz o maior barulho”. http://www.fife.50megs.com/scottish-sayings.htm


CRUIKDHANK George - 1792-1878 - A vida em Londres em 1821
Fig. 02 – Qualquer sociedade ou civilização portadora de um projeto de transcender a Natureza dada  sempre anatematizou a PREGUIÇA como OFICINA do DIABO e a MÃE de TODOS os VÌCIOS como um parasito indesejável no acúmulo de pessoas, meios de produção e de capital.  é necessário só a temeridade

O Regime Colonial Brasileiro também fazia o maior barulho para camuflar as suas reais intenções. Para tanto realizava seus rituais, celebrações coletivas e enforcamentos contextualizados em horrorosos espetáculos públicos. Os seus mediadores e apoiadores emitiam um discurso publico pautado no paradigma da intimidação e da formação do rebanho de súditos.  As suas eventuais mordomias eram usufruídas pelos donos do poder.  Por pior que fosse o regime colonial e por mais injusta escravidão legal vigente no Brasil, mediadores e apoiadores deste poder  seguiam e tinham sempre nas mãos argumentos para NÃO MUDAR o regime e a lei que mantinha de pé o Regime Colonial Brasileiro. Contudo uma vez conquistada a soberania e a liberdade servil, estes mesmos arautos das MUDANÇAS tornam-se paladinos  máximos do CONSERVADORISMO. O poder deixa de circular, na concepção de Foucault, uma vez ELES conquistam  um cargo ou uma posição de destaque. Por sua vez os recém-chegados ao poder ensejam o surgimento de novos contestadores da ordem que eles estabelecem.  Esta luta pelo poder fomentava, entre os excluídos, novos profetas ou revolucionários radicais. Os paradigmas são íntegros e integrais, mas não conseguem incluir nos seus limites toda a realidade sobre os quais eles se estabelecem suas competências e realizam recortes específicos. Esta pretensão seria o primeiro passo para a onisciência, a onipotência, a universalidade e a eternidade características de qualquer totalitarismo.

COROT  Jean-Baptiste Camille 1790-1875 Destruição de Sodoma. 1857- óleo 92 x 181 cm
Fig. 03 – Conforme a narrativa bíblica, na destruição de  SODOMA  poucos se salvaram. Quem olhou para trás, virou estátua de sal. Uma sociedade de comerciantes sabia e apreciava o valor das mudanças. Até o presente várias civilizações aproveitam este saber realizar mudanças cuja cultura é proveniente dos sumérios, fenícios e Indus. A cultura egípcia petrificou-se e foi incapaz da leveza, falibilidade e coerência nas suas mudanças de paradigmas. Enquanto isto os israelitas e os islamitas, portadores de um projeto de transcender a Natureza dada, sempre anatematizaram a inércia e a falta de visão, a carência de projetos e a realização de trocas físicas ou simbólicas.

O paradigma do clã e da tribo mantém a escravidão voluntária característica das culturais tradicionais. Para esta cultura basta sublinhar a tendência humana em naturalizar, apropriar-se e reduzir ao seu próprio tempo, seu território especifico e aos lugares naturais. A entrada de qualquer negociante neste circulo interno é suficiente para romper com este paradigma do clã e da tribo. A autoridade do seu olhar de estrangeiro transforma a tudo e todos em mercadoria. Estas culturas ditas “naturais” só descobrem tarde e numa pesada heteronímia, as suas perdas de sua liberdade, de cultura própria e a identidade que estavam misturadas e presas à Natureza. Diz o ditado Deus perdoa sempre, a criatura humana algumas vezes e a Natureza jamais”. Só num estágio mais avançado descobrem e promovem civilizações das quais conhecem os projetos de origem e a artificialidade e a intencionalidade destas construções humanas. Isto só acontece na medida em que superam o paradigma do clã e da tribo destas culturas que se consideram “naturais”. Parece que cada ser humano necessita passar e romper com o paradigma do clã e da tribo além de evoluir com o coletivo ao qual ele pertence.


BROWN, Ford Madox 1821-1893 - Adeus à Inglaterra 1855 -óleo 75 x 82.2 cm
Fig. 04 – Os imigrantes de todos os tempos e latitudes sempre fora os heróis da MUDANÇA  As perdas significativas que estes imigrantes tiveram foi compensado pela aquisição do estatus de estrangeiros. Como tais passavam a desempenhar o papel de juízos na percepção dos nativos de suas novas pátrias devido ao seu olhar que era considerado neutral. Esta concepção foi desenvolvida extensamente por Georg Simmel.

Ninguém nega, ou é contra, a Natureza. Ela é a mestra dos portadores da memória da vida intrauterina. Ela também ensina, e fornece os meios materiais, para superar o impacto e trauma do nascimento num mundo. Mundo que opõe violentamente com a proteção materna original. A evolução mental individual e coletiva também passa pela caverna platônica.
Contudo nenhum ser humano consegue apagar - do seu inconsciente - o conforto, a proteção e o ócio que ele gozou no útero materno. Também não esquece o choque da perda deste paraíso e a sua necessidade de se habituar a um mundo hostil, por mais confortável que possa parecer e por mais que ele consegue reorganizar. Assim aqueles que questionam ou tentam alterar esta ordem uterina - que ele reconstruiu a duras penas - é declarado inimigo seu. Quem tem por projeto realizar qualquer mudança necessita enfrentar esta resistência existencial. Na concepção freudiana esta mudança joga todos os sofrimentos do parto e que o acompanham para o resto da vida. 

Fig. 05 – Uma das primeiras imagens que o imigrante europeu encontrou nos territórios que desejava “colonizar” era o olhar do nativo com o qual ele conjugava o seu próprio olhar de mercador cujo paradigma transforma a tudo e todos em mercadoria. Nesta conivência de olhares interesseiros os dois naturalizaram e transformaram a todos e a tudo em mercadoria

Nas sucessivas tendências estéticas não é diferente. O teórico francês Bourdieu afirmou (1987 p.218) que  “o conservadorismo estético funda-se na recusa de romper com os  códigos conhecidos para entregar-se às exigências internas da obra”. Exigências internas das quais cada obra necessita lançar mão na construção externa dos seus elementos percebidos pelos sentidos humanos. Exigência crucial para que uma obra de Arte tenha meios para atingir a sensibilidade física do seu observador.  Exigência crucial para que uma obra de Arte tenha a fortuna de ser portadora da mentalidade e pensamento do seu criador até o seu observador.
Estas exigências internas geram poderosos campos de forças. Campos de forças impossíveis de romper na medida em que uma obra de Arte necessita ser coerente com seu tempo e o seu lugar de origem. A primordialidade desta obra de Arte legitima e autoriza também todo o trabalho de mediação.


Fig. 06 – Por mais dura, mortal e desagradável que tinha sido a experiência militar, esta mesma experiência mergulha os seus integrantes num útero coletivo no qual se gera uma consciência coletiva e que é transmitida de geração em geração através da cultura. Na imagem soldados bávaros em 2012, vestidos com os trajes e portando as armas no bicentenário da marcha sobre Moscou e da qual participaram os seus antepassados.
                                                                     
A reação é igual à ação. Reação igual à ação quando ocorre o desconhecimento, a desqualificação ou a desconsideração das forças da Cultura e da Arte. O agente governamental, que se diz mediador entre produtor e observador da Arte e da Cultura, corre o risco de corromper tudo. Quando o agente estatal se apresenta como mediador universal e necessário, permite - e abre  terreno - para o cultivo continuado da desculpa de que o “governo como culpado de tudo”. Especialmente quando este agente não realiza outro esforço mental do que inventar desculpas esfarrapadas. Desculpas esfarrapadas que possuem, entre outros, o seu objetivo imediato de manter o seu cargo e embolsar o alheio. Ele já se encontra, além disto, armado e municiado para apontar, autoritariamente, o responsável e assim se eximir de qualquer sanção moral e no inquérito sobre as eventuais responsabilidades. 


httpbucaco.blogs.sapo.pttagcultura   - http://en.wikipedia.org/wiki/Battle_of_Bu%C3%A7aco
Fig. 07 – A mediação dos soldados e dos oficiais ingleses entre o trono vazio em Lisboa e o poder originário lusitano  manteve a condução de quem iria vencer Napoleão Bonaparte em Waterloo.  Aqui na figura de um azulejo evoca-se a figura de Arthur Wellesley o Duque d WELLINGTON (1769-1852) na BATALHA de BUÇACO ( 27.09.1810)     Por mais dura, mortal e desagradável que tinha sido a experiência militar, esta mesma experiência mergulha os seus integrantes numa cultura de uma memória fixa, linear e única transmitida de geração em geração e na qual o inimigo da época, outros de fora, não se identificam ou reconhecem de forma alguma..

Este foi um expediente de que se valeram os agentes da burocracia lusitana para entregar a guarda do território lusitano aos soldados e aos oficiais ingleses. Enquanto a corte portuguesa se refugiava nas águas tranquilas da baia da Guanabara os ingleses mandavam e desmandavam em Portugal. O Príncipe era alvo da desculpa de que o “governo era o culpado de tudo”.  Esta clivagem entre a Coroa lusa e o Poder - do qual ela se origina -  permitiu a MEDIAÇÃO necessária e oportunista de que qualquer interesseiro e com os mais variado interesses. Porém em outubro de 2012 esta MEDIAÇÂO espúria continua a prosperar e fazer fortunas. Apenas mudam as aparências
O ideal imutável, fixo e único faz esquecer a rica e contraditória realidade. Diante da realidade foi possível a João Pedro Ribeiro elogiar o irlandês–inglês Lorde  WILLIAM CARR BERESFORD (1768-1854) -  Marques do Trancoso  ler o soneto:
“Tua memória ao Marte Lusitano,
Novos brios infunde, alenta, e cria
Em ti ressurge a Lusa Monarchia
Qual out'ora surgio do Jugo Hespano.
Oh quão brilhante vens l o quão radioso!
Mais do que os d'oiro nesta Idade brilhas,
Dia de Glorias, Inclito, Famoso:
Tu, ao Corso iracunda a Fronte humilhas
Tu, excitas n'hum Povo Generoso,
Mores, que as feitas, novas Maravilhas!!!”
Correio Braziliense, nº 53, outubro de 1812, p. 663.



WILLIAM CARR BERESFORD 1768-1854 - Conde de Trancozo
Fig. 08 –  O oficial britânico WILLIAM CARR BERESFORD (1768-1854), nascido na Irlanda e com títulos nobiliárquicos e honoríficos lusitanos como  Conde de Trancozo fez uma mediação com mão de ferro e com suporte dos soldados e dos oficiais ingleses e onde usou os mesmos métodos dos franceses  
Este texto é índice com é possível passar de uma tirania para outra, diferente apenas na forma e modo de agir. Certamente o Marques do Trancoso não era nenhuma unanimidade no seu modo de agir muito menos um democrata com atitudes e convicções favoráveis ao Poder Originário lusitano. Isto ao ponto de a Corte portuguesa refugiado no Rio de Janeiro se esquivar de uma visita deste irlandês bastardo que havia condenado e enforcado vários generais portugueses.
A prédica do futuro incerto e pior do que o presente, são algumas armas para quem quer mudar por mudar, apostando que a realidade mude e se tome favorável a ele. A resposta recebida pelo governo lusitano em outubro de 1812, é um índice de um legalismo imaginado, presumido e endêmico
“mandou o Governo, que a repartição da saude lhe apresentasse os titulos; porque recebia os emolumentos, que cobravam estes officiaes. A resposta foi, que naõ havia mais título do que o custume, e o consentimento das parles; e a uma tal resposta emudece o Governo”.      
                    Correio Braziliense, nº 53, outubro de 1812, p. 686.


LEÕES de CORDEL in MALHO nº 210 RJ 22.09.1906
Fig. 09 – A mediação só é possível numa cadeia de subordinados e títeres - que se movimentam, sem deliberara e decidir - e  nas mãos dos agentes estatais de todas as culturas e épocas. Aqueles que se insurgiram contra a monarquia brasileira no final do II Império Brasileiro e início do Regime Republicano tornam-se paladinos  máximos do CONSERVADORISMO. Estes mesmos antigos arautos das MUDANÇAS aprenderam a manipular os fantoches e títeres servis,  em vez de repassar-lhes a vida da autonomia quando conquistada a soberania e a liberdade, O senador Pinheiro Machado pagou com a própria vida esta mediação nos primórdios republicanos.

Este expediente carreava argumentos para NÃO MUDAR o regime e a lei. São estes mesmos crápulas que, uma vez conquistada a soberania e a liberdade servil, são arautos das MUDANÇAS e depois retornam os postos cujos titulares desestabilizaram para se transformarem nos  maiores paladinos do CONSERVADORISMO.
Estes paladinos do CONSERVADORISMO, uma vez em qualquer cargo público, a sua função consiste em dar plantão numa usina que produz uma torrente contínua de desculpas para entravar qualquer mudança significativa.
As primeiras vítimas a tombar, nesta torrente contínua de desculpas,  são a Verdade, a Arte e o Direito do Poder Originário fluir autônoma e livremente.

FONTES BIBLIOGRÁFICAS
BOURDIEU, Pierre ( *1.8.1930 - †23.1.2002 ) Economia das trocas simbólicas. São Paulo: EDUSP- Perspectiva,  1987.  361p.

CHARTIER,  Roger (*09.12.1945 - ).   Au bord de la falaise:  l´histoire entre certitudes et inquiétude. Paris  : Albin Michel, 1998.  293p.

FOUCAULT, Michel (*15.10.1926 – †28.06.1984).  Microfísica do poder. Rio de Janeiro : Graal, 1995. 295 p.

FREUD, Sigmund.(1858-1939) Conferências introdutórias sobre psicanálise: resistência e  repressão. Rio de Janeiro : Imago 1976. 337-354.  (Edição standard brasileira de obras psicológicas completas de Sigmund Freud. v.16)

SIMMEL, Georg (*01.03.1858- - 28.09.1918)  Sociología y estudios sobre las formas de socialización. Madrid :  Alianza. 1986,  817 p.  2v

FONTES NUMÉRICAS DIGITAIS
CORREIO BAZILIENSE – Londres - outubro de 1812

EDUCACIÓN PROHIBIDA
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